qui. out 28th, 2021
“Será que compro ou não compro?”

Todas as pessoas que decidiram mudar de país para darem um novo rumo às suas vidas sabem o quanto é difícil um recomeço. Quando cheguei ao Japão com a minha família há quase 4 anos, assim como muitos brasileiros, não tinha absolutamente nada além de algumas malas contendo os nossos pertences pessoais.

Fomos instalados pela empreiteira em um apartamento confortável e espaçoso, mas obviamente sem móveis, utensílios de cozinha, entre outros objetos que compõem um lar. O alívio é que já havia a geladeira, o fogão, a máquina de lavar e o ar condicionado, pois apesar de trazermos algumas economias para nos mantermos por pelo menos 3 meses, adquirir eletrodomésticos naquele momento seria bastante pesado para os nossos bolsos.

Logo nos primeiros dias, nos sentimos como verdadeiras “baratas tontas”, sem sabermos para onde correr para comprarmos as coisas que precisávamos, nem como falar com o atendente da loja em japonês, e assim por diante.  

Consciente de toda essa situação, a empreiteira convocou o nosso tantousha para nos levar às compras. Ele, então, nos apresentou às lojas de usados, ou as recycle shops (lojas de reciclagem) como são conhecidas aqui. Foi a nossa perdição. Mal sabia ele que estava conduzindo inocentes novatos de Japão ao “vício”.

Pois é, tenho que admitir. Somos uma família viciada em lojas de usados. No Brasil, já frequentava brechós atrás de uma moda mais alternativa e objetos únicos, além de amar sebos em busca de livros raros. Mas nunca havia visto nada igual às essas lojas japonesas de reciclagem.

Vendem absolutamente tudo o que se possa imaginar! Desde roupas, acessórios, brinquedos e calçados, até eletrônicos, objetos de decoração, eletrodomésticos e por aí vai. Tudo a preços absurdamente baixos em comparação aos artigos novos, com exceção às peças colecionáveis de diferentes nichos, que por serem objetos exclusivos custam fortunas.

“Será que compro ou não compro?”
Loja Treasure-F

O engraçado é que a poucos metros de onde morávamos havia um desses comércios. Viramos seus clientes mais assíduos, pois tudo que sentíamos falta dentro da casa era para lá que recorríamos. Aquecedores, bicicletas, ferramentas, enfim, a lista de coisas que adquirimos é grande. 

Desde então, já visitamos dezenas de recycle shops. Eu sei que muitos torcem o nariz para artigos usados, e é bem verdade que alguns estabelecimentos cheiravam a poeira – o que nos fez sair correndo!

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Loja Hard Off – Japão

Mas muitos vendem artigos em perfeito estado, parecendo novos. Nessas andanças, já encontrei várias roupas ainda com suas etiquetas originais, e de marcas favoritas dos brasileiros como Zara, GAP e H&M, descobrindo que elas funcionam também como outlets.

Porém, a verdade é que temos uma verdadeira relação de paixão e ódio por essas lojas. Paixão porque é inevitável: sempre vai encontrar algo incrível que irá despertar o seu desejo e invocar um “encosto” chamado “espírito do consumo” das profundezas do subconsciente. 

Entretanto, a vontade de comprar pode vir de mãos dadas com a primeira pergunta: “será que eu compro ou não compro”?  

Você sabe que o preço está ótimo, mas lá no fundo tem uma vozinha chata pegando no seu pé: “você não está precisando disso agora, precisa guardar dinheiro…”. Sim, essas lojas são as inimigas número 1 das suas economias, pois por serem muito mais em conta a facilidade em comprar tudo o que deseja é enorme.

Vem então o seu segundo pensamento: “tudo bem, não levo agora, mas quando tiver uma sobra no mês que vem, eu volto e compro”! Ah, doce ilusão… E é aí que nasce o ódio. Porque o objeto do seu desejo nunca mais será visto naquela prateleira. Já dizia a minha filha em sua sabedoria de adolescente: “se não comprar agora, depois não tem mais…”. 

Um fato curioso é que nesses estabelecimentos comerciais, os clientes são em sua maioria japoneses. Observei também que eles consomem com uma velocidade impressionante. Certa vez, quando os noticiários não paravam de falar sobre a aproximação de um “taifu” (tornado), fomos numa loja de usados para comprar um jogo de PS4 que o meu marido estava de olho há pouco tempo. Para a nossa surpresa, as prateleiras – antes cheias – estavam praticamente vazias! Ou seja, além de acabarem com o papel higiênico, com os lenços de papel e os Cup Noodles dos supermercados em situações de risco como a pandemia e o “taifu”, os japoneses também compram tudo que os ajude a não morrerem de tédio dentro de suas casas.

Bem, e o Natal já está bem próximo. O ano foi difícil para boa parte dos brasileiros e muitos tiveram quedas bruscas em suas rendas. Mas, para quem está precisando economizar e ao mesmo tempo não quer passar a data sem dar um presente para seus filhos, as recycle shops podem ser uma solução. Aventurem-se, experimentem e boas compras!


“Será que compro ou não compro?”
Eliana Kojima

Jornalista, formada pela Universidade de Mogi das Cruzes, repórter por 15 anos no Brasil, e agora, desvendando a vida no Japão.