sex. maio 20th, 2022

Morar em outro país não é muito fácil por vários fatores, entre eles, as diferenças culturais. Mas tudo fica ainda mais difícil quando nos deparamos com a barreira da comunicação. Seja qual for o país de destino, saber no mínimo o básico do idioma facilita bastante na adaptação dessa nova realidade. Aliás, atualmente, os anúncios de empregos mostram que ter conhecimento da língua japonesa tornou-se uma das exigências das fábricas (ao menos enquanto durar a crise criada pela pandemia).

No meu caso, a alfabetização aconteceu em português e japonês simultaneamente, pois os meus pais são japoneses. Manter a cultura do país de origem sempre foi muito importante para o meu pai. Portanto, além de frequentar uma escola japonesa no Brasil, dentro de casa o “nihongô” era um idioma comum. Durante a minha infância, todo fim de semana a família se reunia em frente à TV para assistir ao programa “Imagens do Japão”, em que a apresentadora Rosa Miyake mostrava noticiários, novelas e musicais produzidos no arquipélago, o que me ajudou ainda mais na compreensão do idioma.

Entretanto, a partir da minha adolescência, ouvia muitas histórias de ex-dekasseguis contando que, no Japão, o “nihongô” que tínhamos aprendido era arcaico, o tal do “batchanês” (japonês falado por avós e bisavós que migraram ao Brasil no início do século XX até fins da década de 50). Isso me deixou bastante insegura. 

Quando cheguei aqui com marido e filhos, tudo era novo, e ao mesmo tempo, um pouco assustador. Uma simples ida ao supermercado já me fazia pensar, ansiosa: “se a moça do caixa me perguntar alguma coisa, será que vou entender”? 

Por esse motivo, ter um “tantousha” me assessorando foi muito importante nos primeiros meses de Japão. Ele me auxiliava a resolver questões cotidianas como assuntos referentes à prefeitura e consultas médicas. Porém, nem sempre teria um “tantousha” disponível para me ajudar, como em relação à escola das crianças. Na creche em que meu filho frequentava, ele era o único estrangeiro matriculado. Não havia um tradutor e os comunicados, as reuniões, o contato com os professores, tudo era em japonês. O mesmo ocorria com a minha filha mais velha, apesar de no “shougakkou”(escola de ensino fundamental) ter alguns poucos alunos brasileiros além dela.

Já o meu marido, nunca permitiu que o seu pouco conhecimento de “nihongô” se transformasse numa barreira. Tanto é assim que, em pouco tempo, já tinha feito suas peripécias como pegar transporte público sem se perder (sendo que as informações estão todas escritas em kanji), subiu o Monte Fuji sem a ajuda de uma agência de turismo, e conquistou a amizade entre japoneses.

Meu esposo Haysten pegando o trem pela primeira vez em Shizuoka quando não falava nada em japonês

Certa vez, um amigo perguntou a ele como conseguia se virar falando tão pouco o japonês. O meu marido respondeu que basta aprender essas cinco palavras: “toirê” (banheiro), “tabemono” (comida), “sumimassem” (desculpe), “arigatou” (obrigado) e “onegaishimassu” (por favor). Segundo ele, ao menos não vai passar fome e nem ficar em apuros para procurar um banheiro, pois é só falar para um japonês “sumimassem, toirê, onegaishimassu”, que logo ele vai mostrar onde fica o toalete. Outra dica que o meu marido deu foi usar o “koregô”. 

O “koregô” consiste em apontar no cardápio as fotos dos pratos que você quer pedir e falar para o atendente do restaurante: “korê, korê to korê, onegaishimassu” (isto, isto e isto, por favor). Confesso que usamos essa dica até hoje e funciona 100%.

Haysten subindo o Monte Fuji

Mas, brincadeiras à parte, a necessidade de enfrentarmos o dia a dia no Japão não nos dá muito tempo de conservarmos os nossos temores. As reuniões escolares eram o meu pesadelo, pois além de ter de conversar com os professores, era necessário interagir com as outras mães. E sempre vinha um formulário, todo escrito em kanji, para ser preenchido na hora.

Como não podia contar com um “tantousha” nesses momentos, tive de usar o meu “nihongô”, estando certo ou errado, ultrapassado ou não. Vi, então, que conseguia entender o que estava sendo dito, e principalmente, ser compreendida. Mais do que isso, percebi o quanto os japoneses são pacientes e dispostos a ajudar se estiver tendo alguma dificuldade.

Hoje, um pouco mais habituada com a vida no Japão, não fico mais preocupada se em determinada repartição pública, clínica médica ou dentista, não há tradutores. Ajudei o meu marido a abrir conta em banco, transferir a placa do carro, entre outras questões rotineiras, e sempre que ele precisa de uma mãozinha para resolver algo na prefeitura ou em qualquer outro lugar, lá vou eu.

Há muitas coisas neste país que ainda me soam como novidades. Ainda tenho um universo nipônico inteiro diante de mim para desvendar. E ainda há um dicionário enorme de palavras que preciso aprender. E, apesar das dificuldades, hei de aprender sim, pois como dizem os japoneses: “gambarimassu”!

Eliana Kojima

Jornalista, formada pela Universidade de Mogi das Cruzes, repórter por 15 anos no Brasil, e agora, desvendando a vida no Japão.