ter. mar 9th, 2021
“Não trate diferente, aqueles que não são iguais a você”

Os maus tratos nas escolas, chamados de “ijime”, é um dos grandes temores de qualquer pai e mãe de filhos em idade escolar. No Brasil, as notícias que chegam sobre esse assunto são assustadoras. Crianças que receberam “castigos” dos professores japoneses apenas por serem estrangeiros, coleguinhas de classe que se reúnem para humilhar e agredir, as pequenas vítimas encontrando no suicídio uma solução para por fim ao seu sofrimento.

Para os brasileiros e estrangeiros em geral, ainda há mais um fator preocupante. Nossos filhos não falam o idioma japonês. Como vão se adaptar? Como vão conseguir acompanhar as aulas? Esses questionamentos e temores também pesavam na minha cabeça. Porém, para a nossa grata surpresa, a escola japonesa “abraçou” a minha filha de uma forma que nos surpreende até hoje.

Meu marido e eu colocamos como objetivo estabelecermos a vida em família no Japão. Por isso, eram frequentes as conversas e orientações com a nossa filha sobre as dificuldades que ela enfrentaria na escola japonesa. Também sempre deixamos muito claro que ela teria o nosso apoio e amparo em qualquer situação.

Em abril de 2017, ela ingressou no sexto ano do “shougakkou”.  Imagino o quanto os primeiros meses foram desafiantes para uma menina de 12 anos.  Tudo é muito diferente em comparação a uma escola brasileira. Na escola japonesa, é preciso fazer reverência aos professores, o almoço é servido pelos próprios alunos, aliás, os alunos são designados como responsáveis de determinadas tarefas como organizar a limpeza da sala de aula, entre outras atividades que fazem parte do currículo escolar. E ela tinha que participar de tudo isso sem falar uma palavra em “nihongô”.

Em toda a escola estudavam cerca de cinco ou seis alunos brasileiros, sendo ela a única de sua turma. Havia um tradutor de nacionalidade peruana que falava pouco o português. Como ela tinha muitas dúvidas e o tradutor estava sempre ocupado com outras crianças, frequentemente, eu escrevia bilhetes ao professor. Também escrevia sobre algumas situações de desconforto que ela passava, como no dia em que um aluno de outra turma a tratou de forma estranha por ela ser estrangeira.

As respostas que o professor dava para nós vinham em forma de ação. Certo dia, antes de encerrar a aula, ele fez com que seus alunos tivessem um momento de reflexão. Ele olhou para cada um deles e disse: “hoje, vocês estão em uma posição confortável, pois não têm dificuldade em se comunicarem. Mas, se amanhã vocês tiverem que partir para outro país onde não se fala o japonês e os costumes são diferentes, o que farão? Como vocês gostariam de ser tratados? Vocês gostariam de receber ajuda, ou de ser ignorados? Então, não tratem diferente, aqueles que não são iguais a vocês”.

Os colegas de sala da minha filha nunca fizeram qualquer mal a ela, mas o contato era distante. Depois desse dia, eles começaram a lhe dar mais atenção, e a ajudarem mais quando ela não sabia exatamente o que fazer durante uma atividade. 

Em outra ocasião, ele pegou o caderno de tarefas de casa da minha filha e mostrou para toda a sala, aproveitando para “puxar a orelha” dos seus alunos.  “Olhem para este caderno e vejam o quanto ela tem se esforçado nos estudos, mesmo tendo ingressado na escola japonesa somente no sexto ano. Vocês deveriam se envergonhar”, teria dito ele em demonstração clara que a admirava cada vez mais. Não satisfeito, ele contava cada conquista da minha filha para outros professores, o que fez com que ela passasse a ser vista com bons olhos e a ser querida por todo corpo docente.

Após a formatura, ela entrou para o “chuugakkou”. Nessa nova fase, ela descobriu a sua paixão pela arte, o que lhe rendeu vários prêmios, e novamente conquistou os professores. Tanto que houve um choque muito grande quando informei à escola sobre a nossa mudança de província. Em sua despedida, ela foi homenageada de uma forma que nunca imaginei e que jamais esquecerei. A diretoria, os professores, os colegas de classe e os alunos de outros anos se reuniram para demonstrar o carinho e a torcida pelo seu sucesso. 

“Não trate diferente, aqueles que não são iguais a você”
“Minha filha ao lado de uma de suas artes premiadas, que ficou em exposição no Entetsu Hamamatsu Store, em Shizuoka”

Muitos podem pensar que tivemos sorte em encontrarmos escolas tão boas, que ajudaram e muito na superação e aprendizagem da minha filha. Mas, acredito que houve um conjunto de fatores que contribuíram para que tudo isso acontecesse, entre eles, ensiná-la a nunca se subestimar e se retrair, pelo contrário, enfrentar as adversidades. Demonstrar que estou atenta e acompanhando a vida escolar da minha filha, também fez com que os professores tivessem mais atenção com ela. Outro fator bastante relevante deve-se ao seu próprio esforço, vontade de se superar, a disciplina e a espontaneidade característica dos brasileiros, que acabou conquistando os japoneses. 

A luta da minha filha ainda não acabou. Agora, ela está em sua reta final rumo ao ensino médio. As dificuldades de uma estrangeira em escola japonesa já são menores, mas os desafios só aumentam. Meu marido e eu continuamos a incentivá-la, a orientá-la e a apoiá-la incondicionalmente. Seja para qual escola ela vá daqui para frente, estamos preparando-a para novas conquistas. E para as escolas pelas quais ela passou, reina apenas um único sentimento em nossas almas: “gratidão”.


“Não trate diferente, aqueles que não são iguais a você”
Eliana Kojima

Jornalista, formada pela Universidade de Mogi das Cruzes, repórter por 15 anos no Brasil, e agora, desvendando a vida no Japão.