dom. nov 29th, 2020

A grande maioria de brasileiros que conheci – desde que pus os pés nesta terrinha de culturas milenares – vive no país há mais de 10 anos e já não se surpreende mais com certas situações cotidianas. Mas eu, com quase 4 anos morando aqui, ainda me flagro pensando: “Meu Deus, estou no Japão”!

Pois é… ora a ficha cai, ora fica pendente. Uma das situações corriqueiras que me fazem pensar assim é a segurança que este país oferece. Deixei o Brasil com muita dor no coração, mas ao mesmo tempo aliviada por ter largado para trás tantas vivências ruins. 

Quem ainda se lembra de como era andar nos grandes centros das cidades brasileiras? Para as mulheres, circular de bolsa na rua é uma aventura. Tem que ser na parte da frente do corpo e de preferência com os braços agarrados firmemente sobre ela. Ah, sim, e não andar distraída, sempre prestando atenção para todos os lados. Por medida de segurança, e por ter apanhado de bandidos por duas vezes, já havia aposentado as minhas bolsas. Andava com os documentos nos bolsos das jaquetas, enfiava dinheiro na mochilinha de bebê da minha filha, até sacola de supermercado e saco de pão eram válidos para despistar. Nessas horas, a vaidade vai para o espaço e o negócio é se virar como pode para sobreviver!

Eliana Kojima

Hoje, muitos me perguntam se eu já me acostumei a viver aqui. A minha resposta é: “não”. Não consigo me acostumar com a segurança deste país! 

Certa vez, chegando em casa após mais um dia de trabalho na fábrica, percebi que os pneus da minha bicicleta estavam murchos. Entre cuidar dos filhos, fazer o jantar, arrumar a casa, já havia se passado das 21h, e eu ainda não tinha enchido o pneu da minha bicicleta, que era o meu principal meio de transporte para trabalhar e levar a criança à creche.

A rua estava silenciosa e muito escura. Peguei a minha bicicleta, posicionei-a e comecei a encher os pneus. Terminado o serviço com sucesso, olhei para os lados. A rua continuava assustadoramente deserta e escura. De repente, fiquei pasma, quase como se tivesse tomado um susto! “Como assim ninguém veio me abordar para roubar a minha bicicleta?!”

Claro que não queria que me roubassem, mas, ao mesmo tempo, ainda estranho o fato de poder andar sozinha nas ruas no meio da noite com um celular na mão, relógio no pulso e bolsa pendendo pelo braço sem precisar imaginar uma estratégia para atacar o ladrão e escapar do assalto, como por exemplo, colocar a chave de casa entre os dedos para quando o fulano aparecer furar o olho dele.

Quando chegamos no aeroporto de Nagoya vindos do Brasil, meu marido foi ao banheiro e esqueceu o celular na pia. Quando deu por si, cerca de 10 minutos depois, voltou correndo ao banheiro e lá estava o celular. No mesmo local onde havia deixado.

Uma semana depois, fomos conhecer um restaurante de lámen. Após feito o pedido, ficamos aguardando os nossos pratos, quando vejo um homem sozinho sentado no balcão. Ele havia acabado de comer e resolveu ir ao banheiro. Não sem antes deixar sobre o balcão a chave do carro, sua carteira e o celular! Meu marido e eu ficamos imediatamente (e literalmente) boquiabertos. “Como assim? Ele largou todos os seus objetos pessoais e de valor ali!” E ninguém tocou neles. Ninguém sequer olhou para aqueles objetos a não ser nós brasileiros recém-chegados. 

Com quase um ano de Japão, fomos conhecer Tóquio. No shopping de Odaiba, sentamos na praça de alimentação na hora do almoço, portanto, estava lotada de turistas japoneses e estrangeiros. Lá pelas tantas, minha filha deu pela falta de sua bolsinha, que continha o seu zairyu card, o cartão de saúde, dinheiro e celular. Deu desespero total. Mas acho que vocês, experientes de Japão, já devem imaginar o desfecho dessa história, não é? Sim, ao final do dia, o guarda de segurança do shopping nos devolveu a bolsinha intacta. Não faltava nem uma moedinha de “ichi yen”.

Por essas e outras situações é que me pego pensando: “puxa! Tô no Japão”! 

A questão da segurança, em minha opinião, acredito que está atrelada a dois fatores. Um deles é a lei do país, que é severa e funciona. O outro está ligado à honestidade do povo japonês. Aliás, esta é mais uma característica daqui que volta e meia me deixa embasbacada. Mas essas são outras histórias que ficarão para uma próxima vez. 


Eliana Kojima

Jornalista, formada pela Universidade de Mogi das Cruzes, repórter por 15 anos no Brasil, e agora, desvendando a vida no Japão.