sex. jan 27th, 2023

O atleta e medalhista de prata nos Jogos de Londres (2012) teve o sonho de disputar os Jogos Olímpicos em casa em 2020, mas com a pandemia do coronavírus foi obrigado a adiar o sonho até 2021. Por isso, resolveu colocar o pé na estrada.

“Comecei por dois motivos: economizar para poder viajar para competições no futuro e para manter minha forma física”, explica Miyake, de 29 anos, sobre o seu emprego como entregador de comida.

“Olho no celular para os valores de ganho, mas esses números não são apenas dinheiro para mim. É um marcador que me mantém em movimento”, completo.

A imprensa japonesa descreve Miyake como um atleta “amador” sem meios, mas, na realidade, foi ele mesmo quem pediu aos patrocinadores para suspender a ajuda financeira durante a crise, mesmo que isso signifique ter uma vida com poucos recursos.

Como todos os outros atletas olímpicos do mundo, Miyake vive uma profunda incerteza desde que a pandemia atrapalhou os seus planos e treinos.

Para manter a forma física e mental, mas também para garantir a aplicação extra após o adiamento dos Jogos Olímpicos de Tóquio-2020, o esgrimista japonês Ryo Miyake faz o pedal pelas ruas da capital do país a entregar comida. (Foto: AFP)

Em busca de motivação

“Não sei quando vou pode voltar a treinar, nem quando acontecerá o próximo torneio. Não sei também se vou conseguir manter minha condição mental e minha motivação por mais um ano”, lamenta. “Ninguém sabe como desenvolver o processo de classificação” para os Jogos, afirma.

Na espera de respostas, Miyake permite a possibilidade percorrer de bicicleta na gigante capital japonesa, unindo-se ao grande ‘exército’ de entregadores da plataforma digital americana Uber, que cresceu com a pandemia. “Quando tenho um pedido nos bairros com cadeiras, como Akasaka ou Roppongi, me divirto”, brinca durante um de seus trajetos numa tarde ensolarada de maio.

Depois de não disputar os Jogos do Rio-2016, o Miyake foi o 13º classificado no Mundial de Esgrima do ano passado, liderando uma tabela entre os esgrimistas japoneses.

O Comitê Olímpico Internacional (COI) informou a nova data de abertura dos Jogos de Tóquio, até 23 de julho de 2021. Esta é a sua nova meta, mas, na ausência de uma vacina eficaz contra o vírus do coronavírus, que já provocou a morte de quase 300.000 pessoas no mundo, esses dados também podem ser vistos como incidentes.

A equipe japonesa de esgrima ficou sabendo da notícia do adiamento dos Jogos Olímpicos um dia após chegar aos Estados Unidos para uma competição classificativa, explica Miyake. De repente, Miyake teve sua agenda desfeita, sem poder fazer nenhum treino. Assim, passou todo o mês de abril questionando sobre o que poderia fazer, até que teve a ideia de tornar o entregador de comida.

Um impulso de vida

“Os esportes e a cultura se tornam inevitavelmente um segundo plano quando as pessoas sofrem uma crise”, reconhece. “Será que os Jogos Olímpicos são uma necessidade? Para quem vivo, se não é para o esporte? Era isso que eu sempre questionei”, revela.

O seu novo emprego sobe e desce quando as cadeiras de Tóquio deram uma nova chance de vida. Pelo menos por agora. “O objetivo mais imediato para mim é começar a treinar tranquilamente quando o estado de emergência for suspenso. Por enquanto, tenho que estar preparado mental e fisicamente”, insiste o esgrimista.

Miyake tem consciência de que não será fácil aguentar o ritmo até os Jogos do ano que vem e compara sua situação ao corredor de maratona que chega esgotado à linha de chegada, mas que percebe o que precisa continuar a correr. “Eu gosto de esgrima. Quero viajar e participar de jogos Olímpicos. É o único motivo para estar fazendo isso”, conclui o atleta, que quando a criança treina todos os seus ataques contra as paredes da própria casa.